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As relações comerciais entre o Brasil e a Rússia

Com o colapso da União Soviética, tanto o volume das transações comerciais da Rússia, como o seu modo de operação, foram consideravelmente afetados, não obstante ter sido a Rússia a república central e a mais importante da União. Vários fatores contribuíram para isso:

i) a própria perda territorial, com a supressão do volume de transações com origem e destino nas antigas repúblicas soviéticas;

ii) as condições em que se realizou o processo de transformação sistêmica, da passagem da economia centralmente planificada para a economia de mercado, que levaram a uma queda brutal no nível da atividade econômica, da qual o país só começou a sair nos últimos anos da década; essas condições refletiram a desorganização econômica decorrente da destruição do sistema centralizado de planejamento, sem a devida e necessária maturação dos mecanismos institucionais para o funcionamento do mercado, e a instabilidade política resultante das transformações na esfera política; essa queda do nível de atividade não podia deixar de afetar, seriamente, o volume de suas transações com o exterior;

iii) por outro lado, aumentou a importância de suas transações com o Ocidente, mesmo conservando-se importantíssimas as transações com os países da CEI – Comunidade dos Estados Independentes, ex-repúblicas da antiga URSS; e,

iv) por força das transformações sistêmicas, mudou substantivamente o modo de operação do seu comércio com o exterior, substituindo-se o sistema centralizado de intermediação governamental e os mecanismos de countertrade utilizados, pelas livres e diretas negociações entre empresários da Rússia e os dos demais países com os quais efetua as transações. Estas mudanças formam o referencial, dentro do qual devem ser examinadas as relações comerciais do Brasil com a Rússia e as suas potencialidades.

O nível das transações entre os dois países, ainda é insignificante, frente às potencialidades que ambos os mercados representam um para o outro: em média para a década, as exportações brasileiras para a Rússia representaram em torno de 1-1,5% das importações russas, enquanto as importações brasileiras não ultrapassaram 0,5% das exportações da Rússia; em relação ao total das exportações brasileiras, aquelas destinadas à Rússia, no mesmo período, também não representaram mais de 1 –1,5%, enquanto as importações daquele país tiveram uma participação média inferior a 1% do total de nossas importações.

A relação entre o comportamento do valor total de exportações e importações , por um lado, e o comportamento do valor dos principais produtos de exportação e importação, por outro lado, permite verificar a instabilidade que a dependência de alguns poucos produtos pode acarretar em todo o intercâmbio comercial entre o Brasil e a Rússia. O que, se indica, no caso particular do açúcar, a necessidade de contrapor-se, através de negociações, ao protecionismo russo, indica também a importância de diversificar a nossa pauta de exportações.

No primeiro caso, a ocasião parece favorável, pois a Rússia intensificou recentemente os esforços que vem desenvolvendo, desde meados da década, para ser admitida na OMC e, conseqüentemente, deve caminhar para a redução do protecionismo, de um modo geral. Quanto à diversificação de nossas exportações, segundo o Setor Comercial da Embaixada do Brasil em Moscou, vislumbram-se reais possibilidades de aumento das exportações brasileiras de carnes, assim como de recuperação das vendas de café solúvel e para a retomada das exportações de soja, além de que parece haver mercado para a exportação de produtos manufaturados mais tradicionais, como sucos concentrados, têxteis e calçados, e para produtos de alto conteúdo tecnológico, como aeronaves civis para vôos regionais. No que diz respeito às importações da Rússia, existem possibilidades a serem exploradas nos setores em que a tecnologia russa pode complementar a brasileira, cabendo ressaltar o interesse assinalado na Declaração Conjunta pelos presidentes do Brasil e da Rússia, anteriormente referida, a propósito de cooperação no desenvolvimento de projetos conjuntos em setores de alta tecnologia, como a indústria de aviação e espacial, e energia, inclusive nuclear.

Existem, naturalmente, obstáculos a serem vencidos. Numa sondagem sumária junto a empresários que negociam com a Rússia, um dos grandes problemas que existem, em relação às exportações, é o fato da maior parte das transações serem realizadas através de intermediários internacionais, tradings multinacionais, particularmente no que se refere às commodities. Assim, por exemplo, o açucar é transacionado por duas grandes multinacionais européias, o café é transacionado por empresas alemãs, o concentrado de suco, através da Finlândia e até a pimenta do reino, através da Holanda. O domínio do comércio por essas empresas decorreria não só de sua grande capacidade comercial e financeira, como ainda da insegurança e das desconfianças geradas pelo fato de ambos os mercados serem desconhecidos pelos empresários dos dois países.

A desconfiança é particularmente sentida em relação à importação da tecnologia russa, como se pôde constatar no processo de montagem de uma missão empresarial à Rússia, em 1996, financiada pela FINEP – Financiadora de Projetos, depois de um trabalho conjunto de divulgação das ofertas específicas da mesma, feitas através da Embaixada do Brasil em Moscou, pelo CEPSt – Centro de Estudos dos Países Socialistas em Transformação e pelo IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo: a receptividade foi muito pequena, senão insignificante.

Há que considerar ainda, nesse particular, as heranças do passado, que se expressam na crença de que os empresários russos não detém capacidade de gerenciamento e de promoção adequada de negócios, e por conseguinte, na expectativa de ineficácia na prestação de assistência técnica; e nas dificuldades interpostas pelos problemas de ajustamento estrutural a que está sendo submetida a Rússia, no seu processo de transformação sistêmica. É o caso, por exemplo, do setor bancário, de cuja reforma se vem falando no país, mas que é ainda frágil o suficiente para que as suas transações externas deixem de ser realizadas, quando as cartas de crédito emitidas pelos bancos russos não são confirmadas por bancos europeus de primeira linha. Não será por acaso que a busca conjunta de mecanismos financeiros para o desenvolvimento da cooperação comercial, tecnológica e de investimentos foi ressaltada na Declaração Conjunta dos Presidentes do Brasil e da Rússia, várias vezes referida neste texto.

Esses obstáculos podem, porém, ser enfrentados. Há uma série de fatores que favorecem, e que já permitem vislumbrar atitudes de maior agressividade na conquista dos mercados, tanto da parte brasileira quanto da parte russa. Em primeiro lugar, estão os interesses de ambos na busca de novos mercados, como forma de reação ao crescente protecionismo nos paises desenvolvidos, particularmente nos USA e na Europa, contra os produtos dos países emergentes, entre os quais se situam Rússia e Brasil. Em segundo lugar, está a necessidade estratégica que tem o Brasil de expandir significativamente as suas exportações e o empenho que se está cobrando do governo brasileiro nesse sentido.

Em terceiro lugar, mas não por ordem de importância, estão situações conjunturais específicas de cada mercado, que podem e devem ser aproveitadas. No que concerne ao Brasil, isto pode ser exemplificado pela conjuntura favorável à exportação de carnes de aves, frente ao boicote ao consumo do frango americano no mercado russo, em retaliação às restrições à importação do aço da Rússia pelos USA; e pelo aproveitamento dessa oportunidade pelos empresários brasileiros do setor de carnes, através de acordos e pools estabelecidos diretamente entre si ou entre as entidades que os representam. As potencialidades, nesse sentido, são bastante grandes, conforme sugerem os volumes de carnes de aves importadas pela Rússia e a posição do Brasil entre os seus maiores fornecedores . No que concerne à Rússia, pode-se mencionar a recente participação do país na concorrência internacional para a venda de aviões de caça à Aeronáutica brasileira, com proposta que incluiu transferência de tecnologia.

O que permite concluir que as perspectivas das relações comerciais do Brasil com a Rússia são otimistas, desde que se mantenham os esforços que estão sendo encetados pelas autoridades e que aos mesmos se agreguem, através de ações adequadas ao desenvolvimento dos negócios, os setores empresariais brasileiros e russos.

 







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