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Musica BrasileiraA música no Brasil desenvolve-se claramente em duas frentes distintas: a tradição escrita (transposta da música européia), também chamada "erudita" ou "de concerto", e a tradição não-escrita (resultante das misturas entre músicas européias, indígenas e africanas), correspondendo às múltiplas formas da música popular. Ambas apresentam desenvolvimentos próprios e, como também acontece em muitos outros países, cruzam-se em certos momentos. No Brasil esses encontros entre o popular e o erudito têm, no entanto, uma importância específica, pois neles está, sem dúvida, uma das marcas singulares da produção musical brasileira.Lundu Dança sincrética baseada nos batuques dos escravos bantos. Pela liberdade corporal que ela supõe foi muitas vezes vista como lúbrica, licenciosa e indecente. Descrições falam em gestos que parecem combinar traços de fandangos ibéricos (como o estalar dos dedos) com a umbigada característicamente africana. Caldas Barbosa apresenta em Lisboa, em 1775, ao lado de suas modinhas, lundus em que a dança se transforma em canção solista de cunho sensual ou cômico. Desde o fim do século XVIII adaptada para serões de corte, o lundu faz fortuna como dança de salão. São variações do lundu a tirana, a chula, o fado, o miudinho e o baiano. Com a chegada da polca, mais o tango e a habanera, com os quais se funde, o lundu vem a estar na origem do maxixe, o primeiro gênero da música popular urbana moderna, no fim do século XIX e começo do XX. Samba Segundo se supõe, a palavra "samba" viria do quimbundo "semba", referindo-se ao gesto da umbigada, e se generaliza no século XIX como designativo de dança e baile popular em geral. No fim da década de 1910, no entanto, o samba urbano, que vem da dança de roda popular no Rio de Janeiro, enriquecida pelo aporte de contingentes de negros de origem baiana, ganha um formato adaptado às necessidades dos meios de massa emergentes. Os estribilhos coletivos, alternados com estrofes de improvisação individual, tornam-se canções autorais que sintetizam ritmicamente todo o processo de sincopação que veio se desenvolvendo, de maneira anônima e secular, do lundu ao maxixe. A instrumentação, além do violão e do cavaquinho, desenvolve uma gama percussiva que incluirá progressivamente pandeiro, tamborim, cuíca, surdo e caixas. O samba se constitui, segundo José Ramos Tinhorão, à medida que entramos na década de 20, no ritmo que estabelece o denominador comum entre o carnaval dos pobres, dos ricos e dos remediados, tornando-se um meio de representação ao mesmo tempo popular e moderno do Brasil. O que se institucionalizará como uma forma de cidadania da cultura popular de origem africana, transitando entre a malandragem, por um lado, e a apologia dos dons carnavalescos e festivos do Brasil, por outro. Os desfiles carnavalescos, que ganham magnitude e grandiloqüência, especialmente a partir do Estado Novo, na primeira metade da década de 40, fortalecerão as "escolas de samba", comunidades populares voltadas para o samba e que vivem seu grande momento na competição do desfile de carnaval. O desfile de "escolas" no Carnaval faz com que se desenvolva um gênero de samba narrativo e apologético, chamado "samba enredo", ao lado do "samba exaltação", cujo maior exemplo é "Aquarela do Brasil" (1939), de Ari Barroso (1903-1964). No fim dos anos 50 e começo dos 60, a bossa nova reinterpreta a tradição do samba. Movimento Tropicalista Intervenção de um grupo de músicos baianos, formado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tomzé, os letristas Torquato Neto e Capinam, a cantora Gal Costa, além de arranjadores paulistas vindos da música de vanguarda, entre os quais Rogério Duprat e Damiano Cozzella, sobre a cena cultural brasileira na altura de 1967-68, a partir da música popular. O nome "Tropicália", de uma canção de Caetano Veloso que interpreta em chave paródica o Brasil, do populismo tradicional e do desenvolvimentismo de Juscelino Kubitscheck à ditadura militar, do sertão a Brasília, do "brega" à vanguarda, vem de uma obra do artista plástico Hélio Oiticica.
O movimento dialoga também com o cinema de Glauber Rocha e com o teatro de Zé Celso Martinez Corrêa, que dirigira, em 1967, O Rei da Vela, do escritor modernista Oswald de Andrade. Contrapondo-se à defesa das "raízes" populares tidas como pura e genuinamente brasileiras, o movimento tropicalista pratica uma "devoração" dos elementos da cultura internacional de nível "alto" e "baixo" como forma de marcar a transnacionalização da cultura e a sua apropriação crítica em contexto brasileiro, no qual convivem disparatada e explosivamente traços arcaicos e modernos, cosmopolitas e periféricos, atraso e vanguarda, artesanato e indústria. O corte efetuado pelo movimento tropicalista marca a música e o debate cultural até hoje.
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